
P: O voluntarismo do Tesouro e da Reserva Federal americanas, ao não deixar cair os demasiado grandes para falir, na realidade é para capitalizar os bancos zombies (como já chamam a alguns dos grandes bancos na América) e deitar dinheiro para os seus accionistas principais, ou é mesmo para injectar liquidez na economia real, como se diz?
R: Todo o sistema especulativo na fase de expansão estava apoiado num aumento real da produção, ancorado por sua vez nos grandes avanços de produtividade que as novas tecnologias permitiram. A repartição da riqueza produzida deu-se numa aliança de fato entre os CEO das corporações (tipicamente com salários de dezenas de milhões de dólares) e os grandes accionistas e investidores institucionais (os grandes fundos de especulação). Não se trata de uma conspiração: trata-se de uma festa bastante alegre ("festa com chapéu dos outros", dizemos no Brasil), onde quem tinha assento à mesa achava óptimo colaborar.
P: Mas para que servem, então, os reguladores?
R: Quanto aos organismos reguladores, Joseph Stiglitz já mostrou como são as mesmas pessoas que ora estão no Tesouro, ora no FMI, ora na Wall Street, ora na Reserva Federal. Em vez de prestarem serviços financeiros, essencialmente se serviam, e ninguém gosta de estragar festas, sobretudo quando participa.
P: Uma consultora americana, Catherine Austin Fitts, denunciou na América que o que se assistiu desde os anos 1990 com a revogação de peças centrais da regulação e com a gestão das bolhas por Alan Greenspan foi um verdadeiro "golpe de estado financeiro". Uma "criatura" na sombra surgiu de facto dessa vaga de "inovações financeiras"?
R: Como mencionei acima, não se precisa de teoria conspiratória, quando todos estão de acordo em se servir sem pensar muito no futuro ou na sociedade. As instituições de avaliação de risco eram (e são) pagas por quem avaliavam, ainda que um AAA custasse caro - até a Lehman tinha. As empresas de auditoria, com todos os seus códigos de ética, eram consultoras de quem controlavam, uma mão lavando a outra, como no caso da Artur Andersen. Os governos que deveriam regular o sistema financeiro, são constituídos por pessoas eleitas com o dinheiro das corporações. Como pode existir um sistema de regulação e controlo quando os reguladores são, de alto a baixo do sistema, pagos por quem devem regular? O Greenspan é simpático, pois confessa as maldades, inclusive as razões da guerra com o Iraque. Só que confessa, lamentavelmente, depois. No Tesouro entrou um executivo da Goldman & Sachs. Tutti buona gente. Mas sem dúvida que a revogação do sistema de regulação financeira nos Estados Unidos, no final dos anos 1990, foi rigorosamente um ataque organizado contra a economia real, batalhado pelos grandes especuladores, e vale a pena ver como se deu a votação.
P: E esse "monstro" acabou por engolir os seus próprios pais? Greenspan teve azar - esperava gerir uma aterragem suave e acabou deixando o maior presente envenenado desde a Grande Depressão?
R: No excelente documentário 'The Corporation', Michael Moore comenta esta estranha propensão das corporações, que são capazes de nos vender uma corda para alguém que queira enforcá-los, conquanto possam ganhar um dólar na venda. Neste sistema, se não houver controlo externo, político, sobre como são manejados os nossos recursos, simplesmente continuaremos a nos matar de trabalho para produzir um mundo de coisas idiotas, em vez de reduzir a jornada de trabalho, evoluir para um consumo menos denso em Barbies e mais denso em cultura, com maior presença dos bens gratuitos (família, passeios, festas, eventos culturais).R: Michel Chossudovsky, economista canadiano, estima que o dinheiro injectado nos bancos não está servindo para lhes devolver liquidez para que voltem a emprestar e a dinamizar a economia. Os bancos estão comprando activos baratos, consolidando ainda mais o seu oligopólio, ou simplesmente sentando em cima do dinheiro para reduzir a alavancagem. No caso do Brasil, Amir Khair mostrou que os cerca de 100 mil milhões de reais (33 mil milhões de euros) de apoio aos bancos os levou a aplicar o dinheiro em títulos públicos, lucrando com a elevada taxa básica do país (a SELIC, hoje em 11,25%), e com risco zero. Assim, além de lhes adiantar dinheiro público, a população paga através dos impostos a renda sobre o próprio dinheiro. Isto se chama "arquitectura financeira". Transformar dinheiro em investimento, identificando empresas promissoras, fazendo o seguimento dos potenciais económicos reais, é muito mais trabalhoso do que vender pacotes de papéis, os simpaticamente chamados "Structured Investment Vehicles", ou investir em outros papéis. O sistema financeiro simplesmente se desgarrou da economia real, esqueceu que constitui uma autorização pública para trabalhar com dinheiro do público dentro de parâmetros fixados por lei, e teoricamente sob controlo de um banco central. Ninguém estava (ou está) regulando mais nada.
(...)
"Há hoje milhares de exemplos, desde o sítio na web Prosper que permite contacto directo entre poupadores e tomadores de empréstimos, até Organizações Não Governamentais (ONG) de intermediação financeira que trabalham na base da confiança nas comunidades onde conhecem efectivamente as pessoas e as oportunidades. O Placements Ethiques na França apresenta ONG de intermediação financeira que emprestam, que têm activos de grande porte, sem uma pirâmide de intermediários em cima. O sistema precisa de ser liberalizado, retirado das mãos dos atravessadores [intermediários] e dos especuladores, de forma a que o dinheiro volte a servir ao desenvolvimento."
Enquanto isso, nós por cá, apesar da crise, da criminalidade, da falência das autarquias, do primeiro ministro ser constantemente conotado com fraudes e crimes de corrupção, a polémica (que envolveu reacção de TODOS os partidos da reacção) é esta:
RTP retira da emissão anúncio à Antena 1 que gerou polémica
O anúncio: http://videos.sapo.pt/vrKeS9cJAJIVqKroMVsy